As vezes fugia com o Josué, para escorregar na grama que ficava em volta da casa das bombas de água lá na entrada do conjunto onde eu morava, o I.A.P.I da Penha, perto do antigo SAMDU. E lá ficava e só saia quando minha mãe ia preocupada me buscar, de cinturão na mão, pronta para mais umas das anunciadas sessões de castigo, que não aconteciam. Afinal, ela nunca me batia com o cinturão. Eh ! Que tempo bom ! E o castigo? O que era esse castigo afinal? Não ir assistir ao cineminha na praça, lá na Rua 7. Não ir ao show dos Golden Boys no GREIP da Penha ou dependendo da gravidade das outras peraltices, não dançar na Quadrilha de São João da Dona Dorotéia, lá no Centro Cívico Leopoldinense. Não sei o que era pior. Quando a gente é criança, tudo parece muita mais grave e inaceitável do que é na verdade.
Meu pai me levava a praia mais próxima, Maria Angú, a famosa Praia de Ramos, hoje bem mais limpa e disputada pelo povo do subúrbio da Leopoldina. Imagino agora, que virou "point" depois de ser elevada a categoria de Piscinão de Ramos.
Mais o que me atraia mesmo era ficar observando crianças, adolescentes e adultos pularem da Ponte da Ilha do Governador, a primeira ponte, a mais perigosa, sim, porque haviam duas. Nunca pulei, também nunca aprendi a nadar, graças a Deus ! Pular da ponte da Ilha sempre foi perigoso, até mesmo para quem sabia nadar. O risco para quem pulava era de encontrar lá no fundo, uma fogão velho ou geladeira que acabava prendendo pés e pernas dos aventureiros que pulavam, e a pessoa ficava por lá mesmo. Tive um amigo que morreu assim. Mas tinha sempre o lado bom em tudo que vivi lá no meu apartamento da Rua 18, entrada 51, Apartamento 108. Era a vizinhança. Todos se conheciam ha muito tempo, éramos quase uma unica família e as picuinhas que sempre existiam entre vizinhos, naquela época, eram sempre superadas, por conta da intensidade das amizades. Sei que o tempo passou, lá se foram quarenta anos. Sei também que muitas dessas pessoas que faziam parte dessa vizinhança, os adultos, já estão lá no andar de cima. Alguns poucos, ainda recordo com grande saudade. A minha costureira, Dona Ubaldina, A Deusiléia, amiga de minha mãe, Dona Selma e seu Leone, o Geraldo e a Dona Glória outra amiga de mamãe, a Gessi, a Jandira, Dona Ana, Dona Isaltina, todas pessoas inesquecíveis.
Pra encerrar essa nostálgica lembrança, evoco aqui a memória de todos os meus contemporâneos de infância, nos jogos de futebol de "golzinho" no "redondo" da Rua 19, dos jogos de pião, crava-crava e bola de gude no chão de terra em frente ao 103 e 104 da entrada 21. Meus pares nos momentos mais felizes de minha vida de criança: Lú, Massada, Bira, Ruizinho, Arnaldo, Dorinha,Tião, Toninho Capeta, Toninho Medroso, Luiz Carlos (Camôa), Josué, Zézinho, Tebinho, Manga, Leonir e Luiz Carlos Patrocínio e todos que, numa falha de memória, possa ter esquecido.
Deixo nesta reflexão, uma advertência quase que filosófica a todos que não são saudosistas; ninguém consegue deixar de levar pela vida, por maiores que sejam as suas atribulações, um pouco de suas memórias, os melhores momentos da infância. Ai daquele que não as cultiva, não as preserva lá no cantinho da sua mente. Com o passar do tempo elas virão à tona e nos ajudarão a aceitar melhor os percalços da vida, numa espécie de contrapeso. A balança então se equilibrará. O bom da vida e tê-la vivido intensamente. Ter ido e ter conseguido voltar, ter recebido e ter dado, ter sido questionado e ter podido se explicar, ter sido criança e ter brincado, ter existido no significado mais profundo da existência, ter aproveitado bem tudo aquilo que lhe foi ofertado, para hoje poder lembrar e ser lembrado. Afinal, a vida é só uma bela viagem. Por que não nos entregarmos a ela ?
* (Estre pequeno texto de saudade é dedicado a memória de Leonir Patrocinio de Melo - in memorian e a tôda sua famÍlia, que hoje vive unida pelo sentimento, pela emoção e pelo amor, no Rio de Janeiro)

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